Follow by Email

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Da inutilidade das explicações




É sempre ela: a explicação. Achamos que cabemos no que explicamos. Ledo engano. Teorizamos a pessoa que nunca fomos. No máximo o pálido sonho de algum dia ter sido. Frases, gestos, entonação de voz, mil alterações de humor, tons de pele, o rosto tentando mentir. Explicamos querendo trazer o “ex”, o “para fora de”, para dentro.

            Diante do espelho somos outro. Aquele que olha e o que é olhado. Idealizado. Aquele desmascarado. Ultrajado. Censurado. A tentativa de ser. As caricaturas. A dança estranha entre verdade e mentira que fala, mas não é. Explicamos: “ser humano é ser assim...”. Vencidos, assumimos, para nossa vergonha, que não somos. Liberdade talvez seja isso: o inexplicável.

            Somos atores medianos. Peças aleatórias? Um pouco de ar. Não cabemos naquilo que se explica com a arrogância típica das certezas. Deveríamos gargalhar de todos que bradam aos quatro ventos: “eu tenho respostas!” A vida não faz sentido nas respostas, mas nas dúvidas. É jazz. É sentir na pele. É o instante. O pequeno êxtase que faz a alma delirar. Pobre de quem tenta explicar o delírio.

            Deixe as pretensões pedagógicas. Solte as cordas. Desate os nós. Desça do salto. Erre. Viva. Seja. Crie. Falhe. Deixe. Rasgue. Esqueça. Durma bem. Diga mais a palavra “talvez”. É bom não saber de tudo. A tentação da explicação aborta o mistério. Ouça música de qualidade. Feche mais os olhos. Mire os emaranhados. Admire os descompassos, as pausas, as fissuras, os traços do tempo. É o dom do efêmero.

            Respire. Pare o show. Apague a luz. Desfrute da sombra. Sinta o cheiro do seu amor. Tire os sapatos e sinta o chão. Pela primeira vez, talvez, ande. Deixe-se embalar pelas surpresas do cotidiano, ainda que dolorosas. Renda-se. Desafine. Cante aquela música. “Siga o coelho branco”.

            Por favor, não tente explicar esse texto.

            “O que é já foi; o que há de ser, também já foi, e Deus investigará o passado” (Eclesiastes 3.15).
  Allan Brizotti

Nenhum comentário:

Postar um comentário